
Do mesmo diretor do famoso “2 Filhos de Francisco” (2005), “Era uma Vez...” (2008) é um longa metragem aparentemente banal, pelo menos a princípio. Contudo, mesmo com um argumento que é uma espécie de cópia atualizada de Romeu e Julieta, o diretor e produtor Breno Silveira consegue, a partir de um roteiro muito bem elaborado, impedir que o filme se torne tedioso.
A história se inicia com a apresentação, através de um Plano Geral, do Morro do Cantagalo pelo personagem principal, que é morador da comunidade. Enquanto outros habitantes caminham pela favela, ele cita suas profissões (gari, ambulante, babá, flanelinha) e afirma que todos eles são uma “multidão invisível”, por morarem dentro do bairro mais rico do Rio de Janeiro e não serem notados. Dé (Thiago Martins) é mais um desses muitos que não se vê – trabalha na praia vendendo cachorro-quente – e mesmo com um passado sofrido, por ter presenciado a morte de seu irmão biológico e a prisão injusta de seu irmão adotivo, permanece um homem honesto e esforçado que nunca se envolveu com o crime. Tais características corroboram para diminuir a visão estereotipada que se tem do habitante da favela.
De trás da barreira social existente ele se apaixona platonicamente por Nina (Vitória Frate), uma menina rica, moradora de Ipanema (Av. Vieira Souto) e que havia terminado um relacionamento recentemente. Em meio a mentiras, que servem para impedir a ilusão de que o personagem é um mocinho sem defeitos e lhe dá humanidade – fingindo ser da mesma faixa socioeconômica que Nina – Dé se aproxima e faz com que ela se sinta atraída por ele. Ao descobrir sua realidade não se afasta dele, indo de encontro aos preconceitos de amigos e familiares das duas partes. Cria-se a partir de então, um amor utópico que aguarda por futuras intervenções, como em qualquer história previsível.
O obstáculo para que o casal permaneça unido é apresentado, porém, de maneira sutil e adequada: os dois estão num momento íntimo na praia, quando são separados pela chegada de Carlão (Rocco Pitanga). Tal interrupção pode ser interpretada como um empecilho para que a união deles seja concretizada, baseando-se nas conseqüências desse encontro. Desta forma, o retorno permanente do irmão adotivo de Dé, após sair da prisão, é o princípio desse novo rumo que a narrativa tende a seguir, sempre com pitadas de violência. O morro permanece sendo, assim, o foco dos acontecimentos no terço final do filme, conferindo expectativa à trama.
Com um desfecho interessante e inverossímil simultaneamente, o filme desconstrói, em partes, uma visão preconceituosa, apresentando o morro e o asfalto como pontos onde ocorrem mortes de inocentes. A cena adicional, na qual o ator que faz Dé, Thiago Martins, dá um depoimento documental como morador de favela, tenta aproximar e fazer visível aquela “multidão invisível” personificada no ator. Tal fato se torna essencial para que o longa tenha um diferencial em relação a filmes como “Cidade de Deus” (2002) e “Tropa de Elite” (2007), que só têm como foco a violência na favela.
Embora o título do filme (Era uma vez...) remeta a Contos de Fadas e histórias felizes, essa é uma idéia que o filme desconstrói desde as primeiras cenas, que são violentas e realistas. Além disso, a infantilidade, também sugerida pelo título, é deixada para trás, fazendo com que o filme alcance um bom espaço no cinema nacional. Um projeto que aparentemente não propõe ser diferente, mas que consegue atingir tal característica dignamente.